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Destaques entrevista
“Comecei a dar aulas explicando a diferença
sobre os sexos. Só que, a cada aula, eu arrumava mais um sexo,
algo que diferenciava um do outro. E cheguei aos onze sexos do livro.
Fiz o lançamento em 1994 e fiquei surpreso porque não havia
nada parecido no mundo. Havia livros sobre cada postura, mas nenhum que
comparasse uma com a outra”
(Dr. Ronaldo, contando como surgiu o livro) (Leia mais)
“Vida sexual é a forma como a gente
exerce a sexualidade na nossa vida particular. Sexualidade é a
parte biológico-psico-social do organismo: a integração
entre corpo, mente e parte social de cada um”
(Sobre a diferença entre vida sexual e sexualidade) (Leia mais)
“É a compreensão total de uma
pessoa por outra, e vice-versa. É também a troca de informações
verbais, mas mais do que isso. Não é apenas aquilo que a
gente fala que o outro entende”
(Definindo o que é ‘Fator Tele’) (Leia mais)
“O sexo está na cabeça porque
o orgasmo é disparado por centros nervosos que estão no
hipotálamo. Lá existem vários núcleos responsáveis
pelo comportamento sexual”
(Explicando por que o ‘sexo está na cabeça’)
(Leia mais)
“A identidade sexual é composta de
identidade de gênero, a sensação que a pessoa tem
de ser homem ou mulher, e orientação sexual, o desejo que
ela tem em relação a outra pessoa”
(Dr. Ronaldo, descrevendo como é formada a identidade sexual) (Leia
mais)
“A identidade genital surge com dois anos
e meio a três anos, época em que a criança descobre
se é menino ou menina. Já a orientação sexual
eclode na adolescência”
(Sobre a diferença de tempo entre o surgimento da identidade genital
e o da orientação sexual) (Leia mais)
“Se o bebê nasceu com um órgão
que não dá para ser identificado como normal, é melhor
não registrar e levar a criança para um hospital ligado
a alguma faculdade de medicina”
(Dizendo o que fazer se o bebê nascer com alguma anomalia genital)
(Leia mais)
“A pessoa nunca tem escolha, nem opção.
Está além do que ela quer ou deseja para si. Ninguém
consegue mudar isso. O que se pode fazer é optar por realizar ou
não aquilo que ela sente”
(Respondendo à questão: ‘homossexualismo é
uma escolha?’) (Leia mais)
“Homofobia é um medo dos homossexuais,
ou do comportamento homossexual. Já heterofobia é o medo
do outro sexo, algo mais comum do que se pensa”
(Explicando a diferença entre homofobia e heterofobia) (Leia mais)
“Metrossexual é o homem que tem a
coragem, a ousadia de se orgulhar de sua própria beleza, charme
e sex appeal, usando todos os instrumentos estéticos e a cosmetologia
existente nos dias de hoje para ficar mais bonito”
(Definição de Dr. Ronaldo para o termo ‘metrossexual’)
(Leia mais)
“Os travestis e os transexuais têm
uma variação na identidade de gênero que os hetero,
homo e bissexuais não têm. O travesti é masculino
e feminino ao mesmo tempo”
(Sobre a diferença entre travesti e outros gêneros) (Leia mais)
“No Brasil as ‘drag queens’ são
levadas quase como brincadeira, principalmente devido ao comportamento
adotado durante o carnaval. É comum ver homens vestidos de mulher
no Brasil”
(Dr. Ronaldo, sobre o suposto preconceito contra as ‘drag queens’)
(Leia mais)
Como surgiu a idéia do livro ?
No fim da década de 60, conheci um psiquiatra que estava começando
a trabalhar com sexualidade, o Dr. Moacir Costa. Na época, ainda
não existiam especialistas em sexologia em São Paulo. Eu
era autodidata e Moacir Costa resolveu se especializar em Nova York com
Helen Kaplan, uma das expoentes em sexualidade no mundo. Quando ele voltou,
começou a organizar simpósios e cursos sobre sexualidade
humana. Em um desses encontros, conheci Marta Suplicy, especializada em
sexualidade nos EUA, a socióloga Maria Helena Matarazzo, o antropólogo
inglês Peter Fry, entre outros. Cada um discursou sobre um tema,
e eu falei sobre homossexualidade. Pela primeira vez, vi um profissional
de renome como Peter Fry fazer a distinção entre orientação
sexual e identidade de gênero. Ele explicou que orientação
sexual era o desejo que alguém tem em relação a outra
pessoa, e que identidade de gênero era a sensação
de ser masculino ou feminino. Isso abriu minha cabeça, porque naquela
ocasião só existiam as categorias heterossexuais e homossexuais.
Naquela época, o termo ‘homossexual’ englobava uma
série de gêneros, como travesti e transexual. Mas percebi
que o travesti se sentia ofendido em ser chamado de homossexual. Comecei
a estudar as diferenças entre um e outro. Quando Moacir Costa abriu
um curso sobre sexualidade, no início da década de 80, comecei
a dar aulas sobre o assunto. Só que, a cada aula, eu arrumava mais
um sexo, algo que diferenciava um do outro. E cheguei aos onze sexos do
livro, onze posturas básicas de sexualidade, que se desdobram em
outras, mas que acabam sendo básicas. Lancei o livro em 1994 e
fiquei surpreso porque não havia nada parecido no mundo, nenhuma
publicação que mostrasse a diferença entre as posturas
sexuais. Havia livros sobre cada postura, mas nenhum que comparasse uma
com a outra.
Qual é a diferença entre
sexualidade e vida sexual ?
Vida sexual é a forma como a gente exerce a sexualidade no mundo,
na nossa vida particular. Sexualidade é a parte da nossa estrutura
psíquica que a gente chama de sexualidade, a mesma diferença
que existe, por exemplo, entre nossa vida esportiva e a estrutura músculo-esquelética
do nosso corpo. Sexualidade é a parte biológico-psico-social
do organismo: a integração entre o corpo, a mente e a parte
social de cada um. A sexualidade implica sempre no corpo, na mente e na
sociedade, no nosso papel social, aquilo que exercemos no mundo em que
vivemos.
Você diz no livro que todos nós
nascemos com três características a serem desenvolvidas:
a espontaneidade, a criatividade e o ‘fator tele’. O que seria
isso ?
É a compreensão total de uma pessoa por outra, e vice-versa.
É a troca de informações verbais, por exemplo, mas
ainda mais ampla. Não é só o que a gente fala que
o outro entende. É mais do que isso. É a pessoa compreendendo
a outra como um todo. Se essa relação acontece, estabeleceu-se
uma ‘tele’. É tudo que é dito, e o que não
é dito também. Alguém fala uma determinada frase,
que não precisa se explicar, e o outro entende. É uma via
de mão dupla, uma relação subliminar, algo que acontece
entre dois amantes que estão no auge de sua paixão. Essa
relação, muitas vezes, inclui até a telepatia. A
amante está num lugar, pensando no amado. De repente toca o telefone
e é ele. A ‘tele’ é fundamental para o relacionamento
sexual. Numa relação télica, as pessoas vão
para o espaço juntas, explodem de paixão.
Quando pensamos em sexo, relacionamos as
sensações aos prazeres do corpo. O que o senhor quer dizer
quando afirma que o sexo está principalmente na cabeça ?
O sexo está na cabeça porque o orgasmo é disparado
por centros nervosos que estão no hipotálamo. Lá
existem diversos núcleos responsáveis pelo comportamento
sexual. Quando alguém olha uma pessoa que desperta tesão
e fica excitado é porque um determinado centro nervoso foi excitado.
Algo foi ativado na cabeça e, partir daí, gera uma sensação
que ativa o órgão genital.
Por que às vezes outras memórias
vêm à mente durante uma relação sexual ?
Porque é tudo interrelacionado. A pessoa está transando
e um determinado estímulo físico viajou até sua cabeça,
ativou o centro da memória relacionada e trouxe uma imagem diferente,
mas relacionada com aquilo. Um simples toque em alguma parte do corpo
da outra pessoa pode disparar uma memória prazerosa.
Quais são as diferenças entre identidade sexual,
identidade de gênero e orientação afetivo-sexual ?
A identidade sexual engloba os outros dois aspectos, a identidade de gênero
e orientação sexual. A identidade sexual é sempre
composta por esses dois elementos, que não são interligados.
A identidade de gênero é a sensação que a pessoa
tem de ser homem ou mulher, algo que sempre vem de dentro. A orientação
sexual é o desejo que ela tem em relação a outra
pessoa. A identidade de gênero pode ser masculina ou feminina, a
orientação sexual pode ser heterossexual, homossexual ou
bissexual.
A identidade genital surge com que idade
na criança? E a orientação afetivo-sexual ?
A identidade genital se dá na criança entre dois anos e
meio e três anos. Com dois anos e meio, a criança já
sabe se é menino ou menina. Há pesquisas que mostram que
a parte física que nasce dizendo se a gente é masculino
ou feminino acontece no hipotálamo. Aos poucos, o relacionamento
da mãe com o bebê vai revelando para a criança se
ela tem um ‘pinto’ ou uma ‘xoxota’. A mãe
tem que lidar com esse genital todos os dias, várias vezes ao dia,
e o jeito que ela lida com o ‘pipi’ ou a ‘pombinha’
são completamente diferentes. Aos poucos, o menino, por exemplo,
começa a ter consciência de que tem um ‘pipi’
e percebe que é um menino. E com menina a mesma coisa. Isso é
uma coisa imutável. Quando a criança se conscientiza de
que é menino ou menina, aquilo não muda mais, a não
ser em casos raríssimos de transexuais secundários. No caso
da orientação afetivo-sexual, entende-se que existe uma
base orgânica, mais genética do que física. Estaria
mais nos gens do que no hipotálamo. Embora existam teorias que
acham que também deve ter uma base física. Física
quer dizer no cérebro, não nos gens. Provavelmente existe
algo genético ou algo físico que predispõe a pessoa
a ser hetero ou homo. Como se desenvolveria a orientação
sexual? Na realidade, ninguém sabe. Ninguém comprovou até
hoje como um homem se torna hetero ou homo, nem uma mulher. Entende-se
que entre cinco e seis anos, a criança estabelece uma relação
triangular com o pai e com a mãe, em que ele passa a desejar um
e rivalizar com o outro, o célebre Complexo de Édipo estudado
por Freud. Este triângulo vai sendo resolvido na cabeça da
criança de forma inconsciente, não é algo do tiipo
“eu amo minha mãe, eu odeio meu pai”. Isso vai se resolvendo
na cabeça da criança até que a orientação
que está lá dentro eclode na adolescência. Há
gente que diz que o homossexual é fruto de uma mãe muito
presente e de um pai ausente, mas a verdade é que a maioria das
mães é presente e a maioria dos pais é ausente. Isso
é um mito. Não há como explicar por que filhos da
mesma mãe e do mesmo pai se tornam homossexuais e heterossexuais.
O
que os pais devem fazer na hora de registrar um bebê que apresenta
algum problema relacionado à formação dos órgãos
sexuais ?
Se o bebê nascer em um hospital, o médico deve fazer o diagnóstico
do genital e orientar os pais. Mas vamos supor que o bebê tenha
nascido em casa ou em um lugar despreparado para o parto. O correto é
fazer um diagnóstico do ‘sexo natal’, do sexo genital
com o qual a criança nasceu. Se nasceu um órgão que
não dá para ser identificado como normal, ou se há
alguma dúvida, é melhor não registrar e levar a criança
para um hospital ligado a alguma faculdade de medicina. Enquanto ele não
diagnosticado por um pediatra, a família não deve registrar.
É possível haver amizade,
sem conotação sexual, entre homem e mulher ?
Sim, é possível, ao contrário da crença popular.
Dentro da sua classificação,
qual dos onze sexos seria representado pela expressão ‘gay’
?
Literalmente, o termo ‘gay’ é usado apenas para designar
homens homossexuais. A expressão no passado separava os homossexuais
em ‘gays’ e ‘lesbians’. Quando o termo foi criado,
as lésbicas americanas não queriam ser chamadas de ‘gays’
porque ‘gay’ era um termo para homem. As lésbicas,
de maneira geral, são mulheres feministas, ou pelo menos com idéias
feministas. Ela não quer ser confundida com homem. Elas não
gostam do termo ‘mulher homossexual’ porque ‘homo’,
em grego’, quer dizer ‘igual’. ‘Homo’, em
latim, quer dizer ‘homem’. Por isso, preferem ser chamadas
de lésbicas.
Qual é a diferença entre
sua abordagem dos onze sexos e a Escala Kinsey ?
A Escala Kinsey, criada em 1948, tem seis graus e vai apenas do heterossexual
pleno (K0) ao homossexual pleno (K6). Não trata de bissexuais ou
intersexos.
Ser homossexual é uma escolha da
pessoa ?
Nunca. Não é escolha, nem opção. Está
além do que a pessoa quer ou deseja para si. Ninguém consegue
mudar isso. O que a pessoa pode fazer é optar por realizar ou não
aquilo que ela sente. Por exemplo: um homem tem um grande desejo por outros
homens, mas nunca chegou a ter relações sexuais com um homem.
Ninguém fica sabendo sobre sua orientação. Isso pode
aparecer apenas na hora da masturbação, ou às vezes
nem aí. Pode aparecer somente na hora do sonho, porque aí
ele não consegue controlar. Dentro, ninguém opta. Você
só opta por assumir a prática da orientação
ou não. Ninguém escolhe “agora eu vou sentir desejo
por mulher”.
Qual a diferença entre homofobia
e heterofobia ?
Os dois dizem respeito ao medo do sentimento pelo outro sexo. Homofobia,
medo da homossexualidade. Heterofobia, medo da heterossexualidade. Homofobia
é um medo dos homossexuais, ou do comportamento homossexual, ou
até o medo de vir a sentir algum desejo homossexual. Na realidade,
o medo é sempre de si mesmo, projetado no outro. Quando alguém
olha para o outro e vê que ele gosta de homem, fica com medo porque
pode ser que ele também goste de homem. Quem tem absoluta certeza
de que não gosta de homem, não se importa com os homossexuais.
O problema é sempre consigo mesmo, projetado no outro. Já
a heterofobia é o medo do outro sexo, uma coisa relativamente comum.
Há muitos homens heterossexuais que são heterofóbicos,
que tem medo do relacionamento com mulheres. A homofobia é mais
comum, porque até o início do século 20, a mulher
era um ser considerado inferior. Portanto, um homem que assumia sexualmente
a posição da mulher era considerado inferior.
O fato de um homossexual vencer um programa
de votação popular como o Big Brother 5 significa que o
preconceito está diminuindo no Brasil ?
Sem dúvida. É curioso ver que a vitória proporcional
que ele teve, 55% dos votos, é um número muito parecido
com a aprovação que os homossexuais têm pela sociedade
brasileira de maneira geral. Em pesquisas genéricas, cerca de 55%
dos brasileiros dizem que aceitariam que um homossexual fosse professor
de seus filhos, por exemplo. É importante destacar que isso já
representa a maioria da população.
Qual seria a sua definição
de metrossexual ?
Acho positivo existir um termo para designar esse comportamento porque
ajuda os homens a serem mais livres. Metrossexual é o homem que
tem a coragem, a ousadia de se orgulhar de sua própria beleza,
charme e sex appeal, usando todos os instrumentos estéticos e a
cosmetologia existente nos dias de hoje para ficar mais bonito. Metrossexual
é o homem que tem coragem de ser índio, que aliás
se embelezam e se enfeitam mais que as mulheres da tribo. É o homem
que tem coragem de ser bonito sem deixar de ser heterossexual. Gosto de
observar como a sociedade muda, cada vez mais rápido. Quando me
formei em medicina, em 1966, os machões não aceitavam um
homem de cabelo comprido, de brincos, ou simplesmente vestido com uma
camiseta vermelha. Isso faz 40 anos, um período bastante curto
para tantas mudanças culturais.
Qual é a diferença entre
o travesti e o homossexual? E entre o transexual e o travesti ?
Os travestis e os transexuais têm uma variação na
identidade de gênero que os hetero, homo e bissexuais não
têm. O travesti é masculino e feminino ao mesmo tempo. O
hermafrodita é diferente, já vem com o físico alterado
e misturado, algo que hoje já é possível corrigir
ou, pelo menos, influenciar na educação. No caso do travesti,
isso não é possível. No caso do transexual, é
a pessoa que tem uma identidade de gênero inversa ao do corpo. Um
homem com alma de mulher, uma mulher com alma de homem. É totalmente
trocado. Por isso, o único jeito de resolver é trocando
o corpo, ou seja, por meio da operação de sexo. Nesse caso,
um especialista tem sempre que apresentar um laudo, após pelo menos
dois anos de análise, comprovando que o paciente está preparado
psicologicamente para este tipo de operação. Alguns transexuais,
às vezes, são confundidos com hermafroditas porque começam
a tomar hormônios muito cedo, o que causa, no caso dos homens, a
atrofia do pênis. Ele acaba virando quase uma mulher, porque não
teve tempo de ser homem. Não engrossou a voz, não teve barba.
Quem deve decidir o sexo do hermafrodita
? Em que época da vida é necessário fazer esta escolha
?
É um assunto muito sério que deve ser decidido caso a caso.
No passado, pensava-se que se uma criança fosse educada como menino
ou menina desde cedo, teria uma vida sem problemas. Mas não é
verdade. Mesmo assim, a tendência é que os pediatras decidam
transformar o bebê com órgãos atrofiados ou defeituosos
em menina, já que é mais fácil reproduzir o órgão
sexual feminino. Mas quem deve decidir é a família, sempre
auxiliada por uma equipe de médicos.
A drag queen é uma personagem que
reduz ou amplia o preconceito contra o homossexual ?
Acho que não faz diferença. No Brasil isso é levado
quase como brincadeira, principalmente devido ao comportamento adotado
durante o carnaval. É comum ver homens vestidos de mulher no Brasil.
A banda de Ipanema, por exemplo, existe há 25 anos e sempre foi
formada por tipos que hoje a gente chamaria de drag queen.
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